NÃO SOU EU QUEM ME NAVEGA…

No final do ano passado uma grande amiga me pediu pra falar de um samba que marcou minha vida e o “por que”.

Veio um planeta na cabeça.
Várias histórias que vão dos bares, carnavais até as rodas de samba no quintal de tios/avós.

Prolixo que sou, acabei misturando física quântica, sociologia e esoterismo pra (tentar) explicar porque a música “Timoneiro” (Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho) resume tão bem meu modo de ver a vida.

Nós, que somos “muito foda”, jovens, competitivos, politizados, tentamos “tendenciar” a direção de tudo a todo momento. Tentamos mudar pessoas, lugares e até a direção dos mares. Mas a vida… Ah, a vida… Pra essa não tem receita, não tem livros do Kotler, palestras do Karnal ou do Cortela, nem diploma em Harvard.
É só parar pra analisar a estrada (ou o mar). Mesmo onde há o excesso de razão/certeza/direção, sempre surge alguma adversidade (social/natural/pessoal) e essa “adversidade” muda os caminhos, leva a gente a lugares, espaços e braços que não estavam no script.
Não sei se isso ocorre também com os amigos (de boteco ou de crachá), mas com o migo aqui a gente geralmente se joga, com raça, o mar leva – às vezes devolve também.

Bem, o resultado foi esse vídeo em que me afogo na formalidade (quando falo “dentre” por exemplo) tentando resumir que esse samba é “um tapa na cara da prepotência humana” (sóbrio sou blasé, a gente sabe) e que ninguém se navega – somos pequenos demais pra mudar a direção de tudo.

Pra nossa sorte existe o samba pra resumir meus textos ridículos e simplificar as complexidades da existência humana.

Meus comentários são hilários (óbvio), mas o Projeto Eu Sou o Samba é massa demais – sugiro conhecerem mais.

“Quando alguém me pergunta ‘como se faz pra nadar?’, explico que eu não navego, quem me navega é o mar…”

Saudade dos amigos nesse mar.

 

ALGUÉM

     Madrugada de ontem, voltando pra casa, em frente a Igreja da Consolação, me surge aos olhos Alguém, deitado no meio da rua com um pouco de lágrima nos olhos e uma embriaguez pesada (sutil). Sem perguntar se ele queria me ouvir, comecei a prosa – faço isso com todo mundo – e embora o lugar não fosse muito apropriado pra complexidade do diálogo (no meio de uma rua movimentada, numa curva em que os carros passam com velocidade média de 50 a 60 km/h), a condição desse Alguém e a familiaridade com o local geraram estímulo e tranqüilidade pra conversa.

     Por ali fiquei, falando (muito, óbvio), inicialmente, uns cinco minutos. Esse Alguém deitado, eu de pé fazendo discurso de super-herói e tentando convencê-lo a se levantar e ir pra calçada – sem encostar, sem arrastar ninguém, pra gente não perder a amizade. Enquanto os carros passavam tirando fina da gente, vieram várias dúvidas sobre a situação. Primeiro: como ele acabou ali, no meio da rua? Caído, aparentemente deitado… Como? Segundo: quem disse que esse Alguém ‘pode’, ‘quer’, ‘deve’ ou ‘precisa’ se levantar? Terceiro: quem sou eu pra dizer o que ‘acho’ o que é melhor pra ele?

     Bem, papo vai, papo vem, ele deitado no chão, sem condições físicas de olhar pra cima, colocou a mão no meu pé e com a voz baixa, perguntou: “- É meu filho?”. Parei, total. Com a consciência de que ele não era meu pai, nessa pergunta, mais dúvidas surgiram. Afinal, o que sou? Ou melhor: quem sou eu pra esse Alguém nesse momento? Filho? Filho de alguém que não conheço? Pensei em adotá-lo como pai pelo menos ali, porém “ser” significa ser de algo/alguém. Como posse? Poutz, não vai rolar ‘ser’ filho! Respondi na sinceridade. “Cara, não sou seu filho, sou seu amigo. Tamo junto no meio da rua, se você não sair também não saio” (tipo herói brother-master).

     Enquanto a gente se falava, vinha pela diagonal, em passos leves, mais uma pessoa. Um belo travesti, calmo,olhar sereno, se aproximou em silêncio, como se estivesse tentando entender o que tava pegando… Pensei: chegou reforço, alguém pra me ajudar a isolar a área pra gente continuar a conversa de um modo pacífico e encerrar a noite com um acordo trilateral, ou se precisar, se pá, me ajudar tirar esse Alguém daqui da rua na marra. Fiquei com essa esperança de “ajuda” até o mesmo me perguntar com uma leve sagacidade: “- Ele tem dinheiro?”. Olhei feio, respondendo um: “Como assim? O cara tá esticado no chão”. Depois me perguntou “- É seu amigo?”. Aí fudeu (de novo). É muita pergunta e muito cargo pra responder em pouco tempo. Afinal, o que sou pra esse “Alguém” deitado? O que sou pra pessoa que chegou?. Afinal, o que somos nós três?

     Sem se conhecerem, estavam os três formando um episódio comum em cada esquina de São Paulo. Tudo isso ocorreu até o surgimento do quarto elemento, que poderia ser chamado aqui de “desfecho”. Um jovem proativo, com boné de aba reta, que chegou já arregaçando a manga do moletom cor mostarda, e sem saber o que tava pegando, disse “- Vamo tirar esse cara daí!”. Como se já antecipasse: “Essa zona de ‘dúvidas’ de vocês acaba é agora”. Juntos a gente colocou esse Alguém na calçada, perto da farmácia, saímos cada um pro seu lado, encerrando um caso dos vários que a gente vive e não põe no diário, mas que hoje deu vontade de registrar.

     Tem muito ‘Alguém’ esquecido, perdido, caído em nossa frente, nas avenidas, calçadas, escritórios. Muito mesmo. Às vezes até diante do espelho. Alguém precisando de palavra, ou precisando ser carregado, ou de um empurrão… Depende. A gente levanta a cabeça e olha pro outro lado da baia e vê um monte de amigo no departamento dando “Alt + Tab” sem parar e sem saber se paga a parcela da pós ou a parcela do carro – só que a gente não sabe disso. Há quem diga que a gente nem precisa saber. Sabemos o que queremos, vemos e conhecemos! Que esse ‘Alguém’ é um bom profissional, tem seu papel nos ciclos sociais trabalho, família e amigos. Mas, definitivamente, isso não é tudo. O que quero dizer, é que na vida aprendemos sempre com o desconhecido (que gênio). Pode ser com a pessoa que nunca mais vai nos ver, nos te ter, nunca mais vai nos procurar, ou vai procurar quando precisar, ou até mesmo com o problema de alguém que se quer conhecemos.

    Conhecemos nossos pais, filhos, amigos, mas é comum desconhecermos seus reais problemas e angústias que poderiam levá-los a estarem caídos/deitados, no meio de uma rua esperando um caminhão acabar com tudo.
Quando desconhecemos o outro, notamos que também não nos conhecemos.